Tese de Doutorado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2004.
AUTORA: Eliane Scherb (escherb@uol.com.br)
A gravidade dos danos psicológicos do abuso sexual da criança é ainda dificilmente mensurável. Segundo diferentes estudos sobre o tema, incluindo os que utilizam os recursos de testes projetivos, como o Rorschach, as crianças que sofreram abuso sexual costumam desenvolver determinadas reações que se enquadram nas categorias descritivas do estresse pós-traumático, de acordo com o DSM-IV (309-81). Destes descritores, destacam-se reações dissociativas em suas diferentes formas, envolvendo memória (amnésia dissociativa), afetividade (faixa de afeto restrita, sensação subjetiva de anestesia e esquiva persistente de conteúdos perturbadores associados ao evento traumático), aprendizagem (aumento de ansiedade e redução da capacidade de concentração) e adaptação social (entorpecimento da responsividade em geral).
A partir da análise de cinco casos de crianças que sofreram abuso sexual (2 meninos e 3 meninas entre 4 e 12 anos de idade), este estudo fez um levantamento de indicadores psicológicos sugestivos de trauma sexual, através de instrumentos como o Exame pelo Método de Rorschach (pela escola Aníbal da Silveira) e o Teste das Fábulas de Düss (utilizando o roteiro de avaliação proposto por Tardivo), além de desenhos e informações obtidas por entrevistas sobre a vida familiar da criança.
Aspectos comuns puderam ser levantados nas crianças avaliadas, dentre eles, bloqueios afetivos não usuais para a idade, dificuldades de desenvolvimento da autonomia nas crianças maiores, presença de conteúdos agressivos e mórbidos, de distorções cognitivas e perceptuais (sincretismo de imagens, fabulações negativas, perseveração de conteúdo), alterações na percepção dos limites corporais, nível de ansiedade elevado, modelos internos inadequados ou problemas com a introjeção de objetos negativos, referências a conteúdos sexuais não comuns para a faixa etária.
De modo geral, as reações observadas relacionam-se, em termos descritivos, com o distúrbio de stress pós-traumático e, em termos psicanalíticos, com a fixação da libido ao instinto de morte.
Além disso, foi possível identificar, no histórico dessas crianças, a existência de fatores familiares predisponentes à ocorrência de abuso sexual, todos associados a famílias disfuncionais e a negligência materna. Não foi observado nenhum caso de abuso sexual associado a outras formas de violência, como violência doméstica ou derivada do contexto social.
O método clínico que dá base às técnicas projetivas utilizadas neste estudo mostra-se importante para auxiliar na verificação de sinais de trauma decorrentes de abuso sexual e dar subsídios ao psicólogo que trabalha em â mbito jurídico, tanto em perícias, como em encaminhamentos para tratamento clínico e preventivo.
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